Jayme Caetano Braun
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Payada do Ano Novo

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Lyrics

Payada do Ano Novo

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Feliz ano novo, indiada

Feliz ano novo, gente

É a maneira reverente

De iniciar esta payada

Nesta hora iluminada

De pátria e de melodia

E o payador se arrepia

De tradição campesina

Na primeira sabatina

Do ano que principia

Cerimônia não preciso

Para cantar quando falo

Porque nasci de a cavalo

No lombo de um improviso

Canto até o dia do juízo

No estilo missioneiro

E o meu verso galponeiro

Dispensa qualquer prefácio

E tanto entra num palácio

Como num rancho posteiro

O ano novo parido

Anda aí, fazendo as suas

Pelos campos, pelas ruas

Potrilho recém lambido

Ainda não tem apelido

Porque é meio bagualão

Difícil de dar a mão

E bombeando, desconfiado

Como China de soldado

Em tempo de prontidão

Os homens do mundo inteiro

Fizeram um ajuntamento

Pra assistir o nascimento

Desse piazito, janeiro

E aqui, no pago campeiro

Toda indiada se reuniu

E reverente, assistiu

Com ternura, com afinco

Pra ver o noventa e cinco

Que a noite grande pariu

Aqui no povo, as famílias

Fazem o tal réveillon

Mas lá no campo, onde o som

É do vento nas flechilhas

Nós só fazemos vigílias

Quando se reúne a peonada

Na volta da madrugada

Ouviu-se um berro de touro

O ano macho, em vez de choro

Já nasceu dando risada

Sendo macho, é sempre assim

Já nasce enrugando a testa

Porque não vem para festa

De circo de borlantim

Esse vai ser de cupim

Gritava um índio de lá

Vai ser buerana esse piá

Se não der urucubaca

Umbigo cortado a faca

E enleado num xiripá

Eu ia bombeando o céu

Na hora do nascimento

E ouvindo o choro do vento

Num barbaresco te-deum

Depois tapeei o chapéu

Meio pra espantar o sono

Memoriando com entono

Do índio da timbaúva

Que ano novo é como chuva

Não tem patrão e nem dono

Entre um trago e um amargo

Recostado num esteio

Bombeava o piazito feio

Mas taludo, sem embargo

Sentindo no campo largo

Cheiro de pasto e incenso

Naquele desejo imenso

De que este ano que nasce

Faça que o homem se abrace

No amor da paz e o bom senso

Isso é um sonho, talvez seja

Do payador que improvisa

Mas um sonho se realiza

Se com fé a gente o deseja

Mas pra mim que tenho a igreja

No altar da geografia

Guardo essa filosofia

De cruzador sem parança

Se não houvesse esperança

Tudo que é pobre morria

Mas vou dar uma cruzada

Lá pras bandas de São Luiz

Onde deixei a raiz

Pra todo o sempre encravada

Terra santa colorada

De sangue guasca tingida

Terra mil vezes querida

Morada de São Sepé

Ali onde a indiada de fé

Nasce com a alma encardida

Cruzando o Piratinim

Vou ver as pedras no fundo

Santo pedaço de mundo

Que deixei mas não perdi

Voltar de novo a guri

À infância e adolescência

Rever de novo a querência

Num verdejo espiritual

Meu velho pago Natal

Onde mamei inocência

Depois - seguir olfateando

Os recuerdos de criança

Procurando a sombra mansa

Onde me criei tropeando

E logo adiante cruzando

No passo da laranjeira

Lá onde uma bugra parteira

Segundo o ritual antigo

Fez enterrar meu umbigo

Na raiz duma figueira

Depois matar a saudade

Se é que a saudade se mata

Bombeando a Lua de prata

Tropeando na imensidade

A infância e a mocidade

E as ânsias deste índio quera

E as flores da primavera

Que sem querer esmaguei

E os sonhos que não domei

Lá no rincão da tapera

Mas paro porque a emoção

Já me fez perder a calma

Tenho urumbevas na alma

E um cerro no coração

Há um chamado de amplidão

Que para longe me toca

Atração que se convoca

De acordo com as velhas leis

Vou dançar ternos de reis

Nos ranchos da Bossoroca!

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