Marco Brasil
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Boi Furacão

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Lyrics

Boi Furacão

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Certa vez ao regressar a minha cidade que me criei

Lembranças da minha infância e dos amigos que la deixei

Foi quando eu vi a chegada de um circo de rodeio

E os peões boiadeiros desfilavam pelas ruas da cidade

Enquanto o desfile passava naquele instante eu recordava

Do meu velho pai querido que há 8 anos havia morrido

Levando consigo a sua fama de campeão dos rodeios

Eu ainda era criança quando me deram a noticia cruel e doida

Foi o maior golpe da minha vida que tirou o meu pai da lida

E o meu sonho de um dia ser que nem ele, um verdadeiro peão

Eu me lembro quando eu cheguei la no rodeio a arquibancada toda lotada

Olhei no rosto de cada peão e perguntei pelo o meu pai e ninguém me respondia

Foi quando olhei no centro da arena e vi seu chapéu caído, do lado dele seu corpo estendido

Todo ensangüentado, quase que eu perdi os sentidos, nunca mais eu esqueci esse passado

Na hora eu ainda quis saber do touro pra me vingar do assassino

Mas eu ainda era um menino

No meio daquela peãozada que só me diziam

É um touro novo vindo de uma invernada

Preto igual um carvão e das bampas bem afiadas

E naquele instante que eu recordava, enquanto o desfile passava

Eu ouvi o anuncio que o locutor falava

Que faltava peão pro rodeio e a inscrição já começava

E eu que ainda era um jovem que nunca mais tinha ido num rodeio

Depois que o meu pai morreu

Já sentia no sangues nas minhas veias a fibra de um peão

Puxei o meu chapéu na testa fui la na festa e fiz a inscrição

Na hora do sorteio eu tirei o meu papel

Eu levei o meu pensamento e mal sabia que naquele momento

Em minhas mãos estava o nome de um touro assassino que matava sem perdão

E eu que era novo de profissão

Perguntei sem receio, se algum peão ali do meio

Conhecia aquele touro que eu tinha tirado no sorteio

Mas ninguém me respondeu, eu fiquei ali sentado vendo todos calados sem entender nada

Foi quando eu ouvi uma voz que veio do canto

Uma voz grossa falava brando

Olhei para trás e vi que um senhor de idade

Devagar se aproximava e colocando as mãos sobre os meus ombros me disse

Filho eu vi o teu sorteio e como dono desse rodeio

Ouça o que vou-lhe dizer, eu não quero te aborrecer

Mas neste touro você não pode montar

Você ainda é um garoto deixa isto pros outros que a vida já pode ensinar

Ai então eu me levantei e olhei bem dentro dos seus olhos e disse

Senhor se a vida ensina então deixa ela me ensinar

Está é minha sina, por favor senhor me deixa montar

E ele me respondeu: Eu vou fazer sua vontade

Meu jovem peão, mas como obrigação eu preciso lhe dizer algumas palavras

Eu sou o dono desse circo a mais de 40 anos

E viajo o mundo inteiro comprando touro bravo e cavalo redomão

E eu tenho na minha boiada

Um touro muito afamado pela sua crueldade por seus pulos rodados parecendo um furacão

Aliás com esse nome de furacão ele ficou batizado

Depois de ter matado o peão mais afamado do rodeio brasileiro

Eu compreendi naquele instante, que ele estava do meu pai

E que tava ali no rodeio aquele touro assassino

Que um dia agualou os nossos destinos

No dia em que ele matou o meu pai

E a história desse touro assim ele me contava

Meu jovem depois deste fato da morte do seu pai

Eu já corri todos os estados e pra esse touro não teve peão

Os que tiveram mais sorte, se livraram da morte

Mas saíram muito machucados

No rodeio passado la no estadão do Goiás

Tirou ele no sorteio um peão de fama

Considerado o campeão brasileiro e até na nos estrangeiros ele já tinha ganhado

Mas furacão é traiçoeiro e não da glória pra peão

Esse moço coitado nunca mais terá seus passos

Quebrou os seus braços e suas pernas, não teve salvação

Perdeu a fama e ficou aleijado e hoje ele está preso em uma cama

Vivendo apenas de recordação

Assim é o furacão, de fato próprio retrato da covardia

Esse touro tem mais fama do que o seu pai já teve um dia

Mais eu não estou aqui, com isso querendo te amedrontar

Usando estás palavras meu jovem peão

Mas quando inquieto você estava ai sem saber que touro ia montar

Eu achei que era minha obrigação te aconselhar

Mas já que você não quer desistir eu não vou mais insistir

E nem conselhos eu vou lhe dar

Segue em frente a sua jornada o seu destino está em suas mãos

A sua sorte já foi lançada porque o seu touro é o furacão

Eu ouvi aquilo, fiquei em silêncio

Sabendo que aquele touro que eu tinha tirado no sorteio

Era o mesmo touro que um dia tinha matado o meu velho pai

Foi então que ele me disse, filho conheço a tua coragem

Mas desconheço o teu destino

Você já é um homem formado, mas vejo em seus olhos, que ainda é um menino

Sei da sua vontade e percebo o que está sentindo por isso

Filho o teu pensamento e faça a tua oração pedindo a proteção divina

Que se houver a queda, que Deus segure na sua mão

Porque a queda é sentida é doido o empate da vida

Pode ser a sua glória a sua fama

Pode se transformar em pó e lama

Se você cair no chão

Ainda é tempo de desistir, mas já que não é esse o teu desejo

Só peço uma coisa faça tudo para não cair, porque o touro é perigoso

Eu ouvi a palavra daquele velho tropeiro, ouvi os teus conselhos

E ele saiu me deixando sozinho

Confesso que eu senti medo naquela hora

Sabia que aquilo não era brinquedo, mas eu não podia ir embora

Foi quando olhei pra cima e vi que o céu estava estrelado

Procurei o meu pai entre as estrelas do infinito e implorei pra ele um grito

Mas depois fiquei calado

De repente tive a impressão de ouvir um eco de um berrante

Soando distante me veio um calafrio

E um zumbido de uma laço

Parecia que do meu lado tinha uma presença

E eu senti que era o meu pai me dando a bença

Porque eu senti nos meus punhos a força do teu braço

Nisso no céu começou um bombardeio

Era tanto rojão que estourava e o tiroteio

Anunciava que já começava mais uma festa de rodeio

Peguei o meu chapéu a minha calça de couro, a fivela cor de ouro

E o meu cinturão dourado

Fui entrando no rodeio, a arquibancada toda lotada, mas quando olhei no picadeiro

Eu vi que ainda não tinha esquecido a imagem do meu pai caído

E o triste fim de um campeão brasileiro

Nisto o locutor já estava anunciando, que a festa já estava começando

E eu corri la pra trás dos bretes e já fui me aprontando

Tirei da sacola um par de esporas

Que eu tinha ganhado do meu pai, um dia antes dele ir embora

E na arena eu fui entrando junto com os meus companheiros

E o berrante ia repicando saldando os boiadeiros

De repente foi aquela correria, era gente que gritava era gente que sorria

O locutor emocionava, o povão todo aplaudia

Mais de 30 montarias e apenas uma que faltava

Furacão era a última apresentação daquela noite

E a arquibancada que já conhecia a fama do touro

Foi ficando calada prestando atenção

Atenção, atenção, atenção dava pra ouvir o bicho la no fundo dos bretes

Batendo contra as ferragens

Fui chegando perto dele, e vi que o bicho tava assustado

Foi ai que vi que ele tinha o dobro do tamanho que eu tinha imaginado

Era um boi preto mal encarado, chifre comprido e bem afiado

Subi em cima do brete tirei o meu chapéu de novo

E olhei pro céu e pedi a proteção

Com Deus no pensamento e o meu pai no coração

Pulei no lombo da fera

Sem muita espera mandei abrir a porteira

Na saída do furacão a arena já cobriu de poeira

Furacão saiu cavucando o chão, berrando ficando louco

Naquele sufoco assustando o povão

Ele explodia pra cima, rodava pra la berrava pra cá e descia

Rodava pra um lado, rodava pra outro

E com as exporás cravadas em seu couro

Sentado no lombo do touro até o apito final

E a arquibancada que por 8 segundos ficou calada

Prestando atenção começava aplaudir gritando

É campeão é campeão

E o locutor já emocionado ia narrando desse jeito

O que é que isso que está acontecendo

Furacão foi derrotado eu não acredito no que eu estou vendo

E ninguém acreditava e eu sentindo a missão cumprida

Pulei de cima do tirano e de joelhos na terra eu cai rezando

Agradeci a Deus por ter me ajudado, furacão foi derrotado

Afamado cruel e assassino, são iguais agora nossos destinos

Acabou a sua glória, porque a sua fama agora é minha

De joelhos no chão a platéia ainda me aplaudia

E eu chorava de emoção e de novo eu agradecia

Olhando pra cima em voz alta eu dizia

Meu pai ouça o meu pensamento, porque nesse momento

Eu vejo o seu brilho, pode se orgulhar desse teu filho

Porque eu estou fazendo o que o senhor fazia

O senhor me deu força e coragem e agora eu já sou um peão de verdade

Como o senhor já foi um dia

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