Moises Silveira de Menezes
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Carta Aberta Ao Guri Que Fui

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Lyrics

Carta Aberta Ao Guri Que Fui

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Quando vim de lá, trouxe quase tudo,

Tudo que cabia na velha mala sebruna

E nos anseios de horizontes largos.

Ficou um potro cabos negros

Ausentado de quem cavalgava

"alpedo",ao sabor dos ventos.

Ficaram os meus tão queridos

Que ainda hoje, povoam meus recuerdos

Junto a outras tantas bem querenças

Que me foram acrescidas pela estrada.

Ficou um amor não resolvido eternizado

Em sonetos tolos e ingênuos.

Fui guri plantado a beira do rio

Onde a prata dos lambaris

Cintilava ao ouro-sol do verão,

Bailando ágeis pelas corredeiras,

Emolduradas de aguapés e sarandis.

Na retina guardei imagens

De malmequeres desfoihados,

O gosto doce das frutas silvestres,

O aroma de anis e maçanilha

Que compuseram sutil sinfonia

Criando contornos às próprias ausências

E aconchegando as minhas distâncias.

Aos torvelinhos se intercalam na lembrança

Lentas imagens da paisagem da querência,

Capões de mato enclausurando centenárias casas

Onde dormitam amarelados retratos nas paredes

Como guardiões de uma história meio bruta

Perenizada na dureza dos relatos.

Rios preguiçosos onde se espelham cerros grandes

E costeiros fantasmas perambulam

Na boca larga dos causos e das lendas.

Deste cenário eu vim, partido, repartido

Ombreando o fado de moldar sonho e destino

Ao som longínquo de um clarim em retirada.

Hoje tenho certeza, que não vim de todo

Ficou uma parte, partida, vagando

Nos campos floridos da infância

Talvez por isso, vez por outra

Volte a pequena e plácida cidade,

Esculpida no alto da coxilha

Entre a serra geral e o planalto,

Busco elos, peças em falta

No intricado quebra-cabeças

Que paciente e perseverante

Vou montando ao longo dos dias,

Para entender donde vim e pra onde vou.

Me reencontro em parte, aos poucos

Quando o disperso imaginário

Me transporta em fantasia,

Olhar sonhador, plasmado

Na frágil e grácil silhueta

Da professorinha da escola rural

Que serena e mansamente

Desfiava contas e contos,

Talvez sem se dar conta

De um amor primeiro e singular

Que aprisionou-se nos subconsciente dos funções

Para renascer ao ensejo de lembranças fugazes.

Por isso à noite quando o sol se põe

E a lua branda se recorta ao céu

Dou asas longas a meus devaneios.

Despacito vou me enfurnando "lejo"

No campo largo das reminiscências

Onde vagueiam inocentes pirilampos.

Campeio um jeito de volver atrás,

Junto coragem pra rever estragos

Que cimentaram no caminho andado,

Pois, só um rosto numa foto antiga

Amarfanhada no desalinho das gavetas

Liga o real e o meu faz de conta.

Se eu não voltar para ficar, contudo

Viverei poetando esta saudade linda

Que acalma a dor e aproxima os longes,

Mas, volta e meia, inverterei o rumo

Trançando estradas como um peregrino,

Buscando imagens, gestos, paisagens

Que amenizem o passar dos anos.

Jogarei linhas de espera nos remansos,

Irei a escola ver se alguém desfia

Contos e contas como antigamente

E ao retomar terei certeza, enfim,

Haver encontrado o guri que fui.

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