Nícolas Wolaniuk
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A Valsa Dos Sapatinhos Vermelhos

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Lyrics

A Valsa Dos Sapatinhos Vermelhos

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Dos retalhos que tenho

Corto, moldo e rasgo

A linha, sob o tecido

Desenha um nó trançado

Há furos pros cadarços

De cada um dos lados

Do coração, fiz as tripas

E das tripas, um sapato

Dos sapatos, só espero

Ter os pés guardados

Os pés felicitaram

De nova e bela casa

Os olhos acenderam

De surpresa grata

De sapatos feitos

Com tanto esmero e calma

Sou simples e humilde

Mas não sou descalça

Dos sapatos, só espero

Que encerrem minha alma

A vida inteira fui

Menina entre meninas

Havia altas, havia baixas

Eu era pequenina

Mas nada diferente

De tantas outras filhas

De pais todos iguais

Com mães tão parecidas

Dos sapatos, só espero

Que desvelem minha vida

As meninas usam brincos

E tranças nos cabelos

E todas têm saias

Que terminam nos joelhos

Mas sou única e feliz

Quando olho no espelho!

Todas têm sapatos

Mas o meu é vermelho

Dos sapatos, só espero

Que me sejam por inteiro

O céu cheio de susto

Fazia som de chuva e vento

Uma carruagem

Mancava a passo lento

Antiga como a senhora

Que me sorriu de dentro

Me cura a solidão

E te curo o desalento

Dos sapatos, só espero

O mundo como invento

O convite da senhora

Foi direto

Queres vir comigo

E dormir sob meu teto?

Demorei o lábio

Duvidoso e quieto

Mas senti no peito

Um assentir sincero

Dos sapatos, só espero

Que estejam sempre perto

Não me demorei

E entrei na carruagem

De longe, vimos a casa

Surgir da tempestade

Depois daquela porta

Recomeça tua idade

Com ternura lhe sorri

E nasceu nossa amizade

Dos sapatos, só espero

Uma casa de verdade

Já vesti os lençóis

Da tua nova cama

Tira as roupas molhadas

E veste teu pijama

Deita e prega os olhos

Se o dia lhe cansa

Dorme, meu bem

Dorme, minha criança

Dos sapatos, só espero

Que te vistam a infância

Um dia, a senhora

Pouco antes de sair

Chamou: Filha querida

Não tema, venha aqui

Vi você brincando

E os sapatos, também vi

São tão simples e doídos

Quanto a dó que te senti

Dos sapatos, só espero

Que sejam belos como ti

Nem por um segundo quis

Mas fui sem protestar

De sapatos que são tanto

É tão custoso explicar!

Sapatos mais que sapatos

Sapatos-casa, sapatos-lar

Via neles a minha vida

Como se visse a vida em par

Dos sapatos, só espero

Que deem fim ao meu pesar

Depois, ela me deu

Sapatos de princesa

Disse: Ficam lindos

Em teus pés de camponesa

Dê fim naqueles outros

Bem servem à fogueira

Concordei, mas escondi

Os antigos na gaveta

Dos sapatos, só espero

Que relevem minha pobreza

Meus sapatos eram rotos

Eram rasgados e puídos

Feitos com o mais pobre

De todos os tecidos

Mas eram só meus

Próximos como amigos

Sem eles, encolhi

Num silêncio entristecido

Dos sapatos, só espero

Que me devolvam o sentido

Era tanta a saudade

Dos sapatos que fiz

Que mais dia menos dia

Eu decidi partir

No fundo do armário

Os sapatos que escondi

Me sorriram descobertos

E convidaram a fugir

Dos sapatos, só espero

Que não esqueçam de mim

Logo que eu calcei

Meus sapatos antigos

Avistei no horizonte

Um vulto indefinido

Se aproximou de mim

Me encarou a olhos vivos

Meu nome é liberdade

Quer dançar comigo?

Dos sapatos, só espero

A travessia como abrigo

Se assim querem os pés

Então eu dançarei

Dançarei o dia todo

A semana e o mês

E antes de parar

Pra pensar se cansei

Hei de começar

E dançar mais uma vez

Dos sapatos, só espero

A liberdade como lei

Por muito, dancei

Rodopiava de alegria

Eram pés felizes

Meus pés de alforria

Quando enfim cansei

Suspirei em agonia

Que o corpo parasse

O sapato dançaria

Dos sapatos, só espero

Deitar em calmaria

Os sapatos não paravam

Dançaram tarde e tardes

Crescia-me o cansaço

Crescia-lhes o alarde

E perguntei a Deus

Se é pecado a liberdade

Se hei de pagar

Por ter identidade

Dos sapatos, só espero

Que guardem minha imagem

Era uma dança histérica

Nem cabia nos sapatos

Mas eles continuaram

Dançando estrada abaixo

Dentro de uma aldeia

Desvairada de cansaço

Bati em uma porta

Atendeu o carrasco

Dos sapatos, só espero

Perdão de meu pecado

Precisa muito de ajuda

Tamanho é o seu revés

Mas, menina, não é minha

A ajuda que tanto quer

Hei de cortar-te a cabeça

Antes que conte dez

Por favor corte

Não a cabeça, mas os pés

Dos sapatos só espero

O mundo como é

Sem pés e sem sapatos

Implorei ao aldeão

Você que cortou meus pés

Abre meu peito com as mãos

Acha dentre as costelas

Pulsando, o coração

E coloca em seu lugar

Punhados de algodão

Dos sapatos, só espero

Que salvem meus pés do chão

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