Sérgio Ricardo
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Estória de João-Joana

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Lyrics

Estória de João-Joana

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Meu irmão o sucedido

Em Lages do Caldeirão

É caso de muito ensino

Merecedor de atenção

Por isso é que me apresento

Fazendo esta relação

Vivia em dito arraial

No país das Alagoas

Um rapaz chamado João

Cuja força era das boas

Pra sujigar burro bravo

Tigres onças e leoas

João, lhe deram este nome

Não foi de letra em cartório

Pois sua mãe e seu pai

Viviam de peditório

Gente assim do miserê

Nunca soube o que é casório

Ficou sendo João pois esse

É nome de qualquer um

Não carece escogitar

Pedir a doutor nenhum

Que a sentença vem do céu

Não de lá do Barzabum

De pequeno ficou órfão

Criado por seus dois manos

Foi logo para o trabalho

Com muitos outros fulanos

O seu muque sem mentira

Era o de três muçulmanos

Na enxada quem que vencia

Aquele tico de gente

No boteco se ele entrava

Pra bochechar aguardente

O saudavam com respeito

Deus lhe salve meu parente

João moço não enjeitava

Parada com sertanejo

Podiam brincar com ele

Sem carregar no gracejo

Dizia que homem covarde

Não é cabra é percevejo

Num dia de calor desses

Que tacam fogo no agreste

João suava que suava

Sem despir a sua veste

- Companheiro esta camisa

Não é coisa que moleste?

Lhe perguntou um amigo

Que estava de peito nu

E João se calado estava

Nem deu pio de nambu

Ninguém nunca viu seu pelo

Nem por traz do murundu

João era muito avexado

Na hora de tomar banho

Punha tranca no barraco

Fugindo a qualquer estranho

Em Lages nenhum varão

Tinha recato tamanho

João nas últimas semanas

Entrou a sofrer de inchaço

Mesmo assim arranca toco

Sem se carpir de cansaço

Um dia não guenta mais

E exclama: O que é que eu faço

Os manos vendo naquilo

Coisa mei desimportante

Logo receitam de araque

Meizinha sem variante

Para qualquer macacoa

Carece tomar purgante

João entrou no purgativo

Louco de dor e de medo

Se estorcendo e contorcendo

Na solidão do arvoredo

Pois ele em sua aflição

Lá se escondera bem cedo

O gemido que exalava

Do peito de João sozinho

Alertou os seus dois manos

Que foram ver de mansinho

Como é que aquele bravo

Se tornara tão fraquinho

No chão de terra essa terra

Que a todos nós vai comer

Chorava uma criancinha

Acabada de nascer

E João de peito desnudo

Acarinhava este ser

Aquela cena imprevista

Causou a maior surpresa

O que tanto se ocultara

Se mostrava sem defesa

João deixara de ser João

Por força da natureza

A mulher surgia nele

Ao mesmo tempo que o filho

Tal qual se brotassem junto

A espiga com o pé de milho

Ou como bala que estoura

Sem se puxar o gatilho

Se os manos levaram susto

Até eu que apenas conto

E o povo todo assuntando

A história ponto por ponto

Ficou em breve inteirado

Do que aí vai sem desconto

Nem menino, nem menina

Era João quando nasceu

Sua mãe sem saber ao certo

O nome de João lhe deu

Dizendo: Vai vestir calça

E não saia que nem eu

À proporção que crescia

Feito animal na campina

Em João foi-se acentuando

A condição feminina

Mas ele jamais quis ser

Tratado feito menina

Pois nesse triste povoado

E cem léguas ao redor

Ser homem não é vantagem

Mas ser mulher é pior

Quem vê claro já conclui

De dois males o menor

Homem é grão de poeira

Na estrada sem horizonte

Mulher nem chega a ser isso

E tem de baixar a fronte

Ante as ruindades da vida

De altura maior que um monte

A sorte se presenteia

A todos doença e fome

Para as mulheres capricha

Num privilégio sem nome

Colhe miséria maior

E diz à coitada - tome

É forma de escravidão

A infinita pobreza

Mas duas vezes escrava

É a mulher com certeza

Pois escrava de um escravo

Pode haver maior dureza?

Por isso aquela mocinha

Fez tudo para iludir

Aos outros e ao seu destino

Mas rola não é tapir

E chega lá um momento

Da natureza explodir

João vira Joana, acontecem

Dessas coisas sem preceito

No seu colo está Joãozinho

Mamando leite de peito

Pelo menos este aqui

De ser homem tem direito

De ser homem de escolher

O seu próprio sofrimento

E de escrever com peixeira

A lei do seu mandamento

Quando, à falta de outra lei

Ou eu fujo ou arrebento

Joana desiste de tudo

Que ganhara por mentira

Sabe que agora lhe resta

Apenas do saco a embira

E nem mesmo lhe aproveita

Esta minha pobre lira

Saibam quantos deste caso

Houverem ciência que a vida

Não anda em favor e graça

Igualmente repartida

E que dor ensombra a falta

De amor de paz e comida

Meu amigo meu irmão

Eu nada te peço a ti

Senão me ouvir com paciência

De Minas ao Piauí

Tendo contado o meu conto

Adeus me despeço aqui

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