Telmo de Lima Freitas
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Velório de Cruz

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Lyrics

Velório de Cruz

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Nobre culto campesino

Que, talvez, contrabandeado

Ficou assim transplantado

No reduto das Missões

Ardentes evocações

Que o povo ainda cultua

Com grande devotamento

Reproduz o sofrimento

De sete dias atrás

E, para que durma em paz

Se deve, então, batizar

A cruz, sinuelo da cova

Demonstrando grande prova

De saudade e pesar

Comparecem os vizinhos

Que moram na redondeza

E, aparentando tristeza

Ajudam no puxirão

Velando a cruz de um irmão

Que, uma semana certita

Se cambiou de residência

Pra morar noutra querência

Por vontade do Patrão

Segue o ritual do velório

Em memórias ao finado

Vela nos quatro costados

Fita de todas as cores

Reza e terço, clamores

Em nome do falecido

Que foi desaparecido

Da convivência dos seus

Foi curta a sua passagem

Mas cumpriu a empreitada

Que lhe foi depositada

Por esse mundo de Deus

Posando junto das flores

Tem um frasco recostado

Que também será levado

Para o lugar derradeiro

Oferta de um companheiro

Que amadrinhava balcão

Quase sempre em parceria

Quando secava, enchia

De cachaça com mestruz

E, hoje, junto da cruz

Com a maior complacência

Oferece aquela essência

Ao amigo de prazer

Nada podendo fazer

Pede, na sua oração

Que as almas bebam por ele

Que já não pode beber

No virar da meia noite

Segue a conversa em cochicho

Alguém chega do bolicho

Trazendo meia garrafa

Para afugentar a estafa

De quem vai amanhecer

Segue, então, a benzedura

Cruzando um frasco de pura

Num silêncio emocional

E as velas choram seu choro

Pingando lágrimas brancas

No lombo do castiçal

Causos da velha querência

Que muita gente ignora

Contam que a canha evapora

De junto da sepultura

Que se apeia das alturas

Alguma alma penada

Que não foi purificada

E vaga sem parador

E chega no bebedor

De um sepulcro de campanha

Beber um trago de canha

Pra esquecer que é sofredor

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