Vinicius de Moraes
Lyric guide

Elegia Na Morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, Poeta e Cidadão

Read Elegia Na Morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, Poeta e Cidadão lyrics by Vinicius de Moraes on LyroVerse, with linked artist context and related song paths.

Vinicius de Moraes visibility5 visits
person Curated by Ethan Walker LyroVerse team
Reference snapshot

The page facts to cite before the commentary

Use this page for the lyric text, linked artist context, and any LyroVerse editor's note attached to the song. Listener comments remain user-generated and should not be treated as the primary source.

Page type: lyric reference Artist: Vinicius de Moraes Canonical path: /vinicius-de-moraes/elegia-na-morte-de-clodoaldo-pereira-da-silva-moraes-poeta-e-cidadao Related lyric paths: 6
Lyrics

Elegia Na Morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, Poeta e Cidadão

The lyric stays readable and compact here; the note and related paths sit nearby so you do not lose the song while looking for context.

A morte chegou pelo interurbano em longas espirais metálicas.

Era de madrugada. Ouvi a voz de minha mãe, viúva.

De repente não tinha pai.

No escuro de minha casa em los angeles procurei recompor tua lembrança

Depois de tanta ausência. Fragmentos da infância

Boiaram do mar de minhas lágrimas. Vi-me eu menino

Correndo ao teu encontro. Na ilha noturna

Tinham-se apenas acendido os lampiões a gás, e a clarineta

De augusto geralmente procrastinava a tarde.

Era belo esperar-te, cidadão. O bondinho

Rangia nos trilhos a muitas praias de distância

Dizíamos: "e-vem meu pai!" quando a curva

Se acendia de luzes semoventes, ah, corríamos

Corríamos ao teu encontro. A grande coisa era chegar antes

Mas ser marraio em teus braços, sentir por último

Os doces espinhos da tua barba.

Trazias de então uma expressão indizível de fidelidade e paciência

Teu rosto tinha os sulcos fundamentais da doçura

De quem se deixou ser. Teus ombros possantes

Se curvavam como ao peso da enorme poesia

Que não realizaste. O barbante cortava teus dedos

Pesados de mil embrulhos: Carne, pão, utensílios

Para o cotidiano (e freqüentemente o binóculo

Que vivias comprando e com que te deixavas horas inteiras

Mirando o mar). Dize-me, meu pai

Que viste tantos anos através do teu óculo-de-alcance

Que nunca revelaste a ninguém?

Vencias o percurso entre a amendoeira e a casa como o atleta exausto no último lance da maratona.

Te grimpávamos. Jras penca de filho. jamais

Uma palavra dura, um rosnar paterno. Entravas a casa humilde

A um gesto do mar. A noite se fechava

Sobre o grupo familial como uma grande porta espessa.

Muitas vezes te vi desejar. Desejavas. deixavas-te olhando o mar

Com mirada de argonauta. Teus pequenos olhos feios

Buscavam ilhas, outras ilhas... - as imaculadas, inacessíveis

Ilhas do tesouro. Querias. querias um dia aportar

E trazer - depositar aos pés da amada as jóias fulgurantes

Do teu amor. Sim, foste descobridor, e entre eles

Dos mais provectos. Muitas vezes te vi, comandante

Comandar, batido de ventos, perdido na fosforescência

De vastos e noturnos oceanos

Sem jamais.

Deste-nos pobreza e amor. A mim me deste

A suprema pobreza: O dom da poesia, e a capacidade de amar

Em silêncio. Moste um pobre. mendigavas nosso amor

Em silêncio. Moste um no lado esquerdo. mas

Teu amor inventou. Financiaste uma lancha

Movida a água. Poi reta para o fundo. partiste um dia

Para um brasil além, garimpeiro, sem medo e sem mácula.

Doze luas voltaste. Tua primogênita - diz-se -

Não te reconheceu. Trazias grandes barbas e pequenas águas-marinhas.

Não eram, meu pai. A mim me deste

Águas-marinhas grandes, povoadas de estrelas, ouriços

E guaiamus gigantes. A mim me deste águas-marinhas

Onde cada concha carregava uma pérola. As águas-marinhas que me deste

Foram meu primeiro leito nupcial.

Eras, meu pai morto

Um grande clodoaldo

Capaz de sonhar

Melhor e mais alto

Precursor de binômio

Que reverteria

Ao nome original

Semente do sêmen

Revolucionário

Gentil-homem insigne

Poeta e funcionário

Sempre preterido

Nunca titular

Neto de alexandre

Filho de maria

Cônjuge de lydia

Pai da poesia.

Diante de ti homem não sou, não quero ser. És pai do menino que eu fui.

Entre minha barba viva e a tua morta, todavia crescendo

Há um toque irrealizado. No entanto, meu pai

Quantas vezes ao ver-te dormir na cadeira de balanço de muitas salas

De muitas casas de muitas ruas

Não te beijei em meu pensamento! Já então teu sono

Prenunciava o morto que és, e minha angústia

Buscava ressuscitar-te. Tessuscitavas. teu olhar

Vinha de longe, das cavernas imensas do teu amor, aflito

Como a querer defender. Vias-me e sossegavas.

Pouco nos dizíamos: "como vai?" como vais, meu pobre pai

No teu túmulo? Dormes, ou te deixas

A contemplar acima - eu bem me lembro! - perdido

Na decifração de como ser?

Ah, dor! Como quisera

Ser de novo criança em teus braços e ficar admirando tuas mãos!

Como quisera escutar-te de novo cantar criando em mim

A atonia do passado! Quantas baladas, meu pai

E que lindas! Quem te ensinou as doces cantigas

Com que embalavas meu dormir? Voga sempre o leve batel

A resvalar macio pelas correntezas do rio da paixão?

Prosseguem as donzelas em êxtase na noite à espera da barquinha

Que busca o seu adeus? E continua a rosa a dizer à brisa

Que já não mais precisa os beijos seus?

Calaste-te, meu pai. No teu ergástulo

A voz não é - a voz com que me apresentavas aos teus amigos:

"Esse é meu filho fulano de tal". E na maneira

De dizê-lo - o vôo, o beijo, a bênção, a barba

Dura rocejando a pele, ai!

Tua morte, como todas, foi simples.

É coisa simples a morte. QóI, depois sossega. quando sossegou -

Lembro-me que a manhã raiava em minha casa - já te havia eu

Recuperado totalmente: Tal como te encontras agora, vestido de mim.

Não és, como não serás nunca para mim

Um cadáver sob um lençol.

És para mim aquele de quem muitos diziam: "é um poeta…"

Poeta foste, e és, meu pai. A mim me deste

O primeiro verso à namorada. Furtei-o

De entre teus papéis: Quem sabe onde andará… fui também

Verso teu: Lembro ainda hoje o soneto que escreveste celebrando-me

No ventre materno. E depois, muitas vezes

Vi-te na rua, sem que me notasses, transeunte

Com um ar sempre mais ansioso do que a vida. Levava-te a ambição

De descobrir algo precioso que nos dar.

Por tudo o que não nos deste

Obrigado, meu pai.

Não te direi adeus, de vez que acordaste em mim

Com uma exatidão nunca sonhada. Em mim geraste

O tempo: Aí tens meu filho, e a certeza

De que, ainda obscura, a minha morte dá-lhe vida

Em prosseguimento à tua; aí tens meu filho

E a certeza de que lutarei por ele. Quando o viste a última vez

Era um menininho de três anos. Hoje cresceu

Em membros, palavras e dentes. Diz de ti, bilíngüe:

"Vovô was always teasing me…"

É meu filho, teu neto. Deste-lhe, em tua digna humildade

Um caminho. M meu caminho. marcha ela na vanguarda do futuro

Para um mundo em paz: O teu mundo - o único em que soubeste viver;

Aquele que, entre lágrimas, cantos e martírios, realizaste à tua volta.

Quick answers

What this page can answer fast

Who performs "Elegia Na Morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, Poeta e Cidadão"?

Vinicius de Moraes performs "Elegia Na Morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, Poeta e Cidadão", and this lyric page sits inside the Vinicius de Moraes catalog on LyroVerse.

Are there related songs to explore after "Elegia Na Morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, Poeta e Cidadão"?

Yes. The related section below points to Poema Dos Olhos da Amada and Regra Três with a short reason for opening each page next.

Where can I find more songs by Vinicius de Moraes?

Use the artist link near the top of the page or the related paths section below to keep moving through Vinicius de Moraes's lyric pages.

Song Room

Interpretations, questions, and corrections for this song

Interpretations, questions, memories, and correction notes live together here. The room stays noindex while the best insights are reviewed.

Open Song Room
0 followers Selected insights only surface after moderation
Listener comments

What people are saying

0 comments
Add a short interpretation or memory

A strong comment here is specific: the phrase you keep hearing, the mood you come back for, or the reason this song stays in rotation.

Sign in to post the first listener note. Reporting stays open to everyone.

No listener comments on Elegia Na Morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, Poeta e Cidadão yet.