João Villaret
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Excerto de Uma Ode

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Lyrics

Excerto de Uma Ode

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Vem, Noite antiquíssima e idêntica

Noite Rainha nascida destronada

Noite igual por dentro ao silêncio. Noite

Com as estrelas lantejoulas rápidas

No teu vestido franjado de Infinito

Vem, vagamente

Vem, levemente

Vem sozinha, solene, com as mãos caídas

Ao teu lado, vem

E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas

Funde num campo teu todos os campos que vejo

Faze da montanha um bloco só do teu corpo

Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo

Todas as estradas que a sobem

Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe

Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores

E deixa só uma luz e outra luz e mais outra

Na distância imprecisa e vagamente perturbadora

Na distância subitamente impossível de percorrer

Nossa Senhora

Das coisas impossíveis que procuramos em vão

Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela

Dos propósitos que nos acariciam

Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas

Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto

E que doem por sabermos que nunca os realizaremos

Vem, e embala-nos

Vem e afaga-nos

Beija-nos silenciosamente na fronte

Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam

Senão por uma diferença na alma

E um vago soluço partindo melodiosamente

Do antiquíssimo de nós

Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha

Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos

Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida

Vem soleníssima

Soleníssima e cheia

De uma oculta vontade de soluçar

Talvez porque a alma é grande e a vida pequena

E todos os gestos não saem do nosso corpo

E só alcançamos onde o nosso braço chega

E só vemos até onde chega o nosso olhar

Vem, dolorosa

Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos

Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados

Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes

Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados

Vem, lá do fundo

Do horizonte lívido

Vem e arranca-me

Do solo de angústia e de inutilidade

Onde vicejo

Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido

Folha a folha lê em mim não sei que sina

E desfolha-me para teu agrado

Para teu agrado silencioso e fresco

Uma folha de mim lança para o Norte

Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei

Outra folha de mim lança para o Sul

Onde estão os mares que os Navegadores abriram

Outra folha minha atira ao Ocidente

Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro

Que eu sem conhecer adoro

E a outra, as outras, o resto de mim

Atira ao Oriente

Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé

Ao Oriente pomposo e fanático e quente

Ao Oriente excessivo que eu nunca verei

Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta

Ao Oriente que tudo o que nós não temos

Que tudo o que nós não somos

Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva

Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo

Vem sobre os mares

Sobre os mares maiores

Sobre os mares sem horizontes precisos

Vem e passa a mão pelo dorso da fera

E acalma-o misteriosamente

Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!

Vem, cuidadosa

Vem, maternal

Pé ante pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste

À cabeceira dos deuses das fés já perdidas

E que viste nascer Jeová e Júpiter

E sorriste porque tudo te é falso e inútil

Vem, Noite silenciosa e extática

Vem envolver na noite manto branco

O meu coração

Serenamente como uma brisa na tarde leve

Tranquilamente com um gesto materno afagando

Com as estrelas luzindo nas tuas mãos

E a Lua máscara misteriosa sobre a tua face

Todos os sons soam de outra maneira

Quando tu vens

Quando tu entras baixam todas as vozes

Ninguém te vê entrar

Ninguém sabe quando entraste

Senão de repente, vendo que tudo se recolhe

Que tudo perde as arestas e as cores

E que no alto céu ainda claramente azul

Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem

A Lua começa a ser real

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